Entre picos de demanda e riscos de estoque, negócios do setor precisam encontrar o equilíbrio para aproveitar tendências que podem surgir e desaparecer em poucos dias

Em apenas 11 dias, o morango cravejado saiu de praticamente nenhum registro no iFood para um crescimento de 105.200% nos pedidos. As primeiras compras foram identificadas em 20 de agosto e, até o dia 30, o volume já havia se multiplicado por 1.053 vezes, segundo dados da plataforma divulgados pela Exame. A rápida passagem das redes sociais para o delivery evidencia uma mudança na confeitaria: produtos podem ganhar demanda em poucos dias, obrigando negócios do setor a decidir com mais rapidez o que produzir, quanto comprar e até quando manter uma novidade no cardápio.

Felipe Noronha, CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação e sete unidades próprias, a oportunidade criada por um produto viral precisa ser analisada junto com o risco operacional. “Quando uma tendência cresce dessa forma, existe uma pressão natural para colocá-la rapidamente na vitrine. O cuidado é não confundir muita atenção nas redes com uma demanda que permanecerá no mesmo ritmo. É preciso avaliar custo, produção, disponibilidade dos ingredientes e capacidade de venda antes de aumentar a operação”, afirma.

O fenômeno ganhou força em agosto. Dados reunidos pela Folha de S.Paulo mostram que, em apenas sete dias, as buscas por “morango cravejado” no Google cresceram 1.460%. No período analisado, a hashtag relacionada ao doce já somava mais de 5 mil vídeos no TikTok e 23 mil publicações no Instagram.

A receita combina morango fresco, brigadeiro branco, chocolate e pedaços de caramelo vermelho. Mais do que a composição, porém, foi o apelo visual que ajudou o produto a circular em vídeos curtos e fotografias. O resultado apareceu rapidamente fora das redes: São Paulo concentrou cerca de 40% das compras registradas pelo iFood, seguido por Paraná, com 10%, além de Santa Catarina e Minas Gerais, ambos com 8%.

A tendência também chegou ao interior do país. No aiqfome, o volume passou de nenhum pedido em julho para 2.495 em agosto, alta de 2.836,84%. A oferta atravessou a virada do mês: em 1º de setembro, 120 estabelecimentos ativos da plataforma ainda comercializavam o produto, sinal de que a procura não ficou restrita ao pico registrado em agosto.

O viral virou parte do planejamento

O comportamento repete, em intervalo ainda menor, o caminho percorrido pelo morango do amor. Entre junho e julho de 2025, os pedidos daquele produto no iFood passaram de 11 mil para 275 mil, avanço superior a 2.300%. No mesmo período, o número de estabelecimentos que ofereciam o doce saltou de 830 para mais de 10,3 mil.

A diferença está na velocidade. Para Noronha, acompanhar tendências deixou de ser apenas uma decisão de marketing e passou a envolver diretamente compras, desenvolvimento de produto e rotina de produção. “Uma confeitaria precisa conseguir testar uma novidade sem criar uma estrutura pesada para algo que ainda não sabemos quanto tempo vai durar. O produto pode entrar rápido, mas a operação precisa continuar saudável depois que a atenção do consumidor migrar para a próxima novidade”, ressalta.

Como reagir quando o produto viraliza

Para pequenos negócios de alimentação, a rapidez não deve significar produzir em grande escala desde o primeiro dia. O caminho mais seguro começa com um lote reduzido, ficha técnica definida e acompanhamento diário das vendas. A partir da resposta real dos clientes, a empresa consegue ampliar gradualmente a produção sem comprometer caixa com ingredientes que podem perder valor ou validade caso a procura diminua.

Em orientação atualizada em setembro, o Sebrae recomenda que pequenos empreendedores registrem quantidade, custo unitário e valor total dos produtos em estoque e acompanhem entradas e saídas para calcular o giro das mercadorias. No setor de alimentação, em que parte importante dos insumos é perecível, esse controle ganha peso quando uma tendência provoca aumento repentino da procura.

“Para um pequeno negócio, a pior reação é tentar acompanhar o tamanho do viral antes de entender o tamanho da própria demanda. O ideal é lançar, medir a saída, observar a recompra e aumentar aos poucos. Se vendeu tudo em um dia, isso não significa que será necessário produzir dez vezes mais no seguinte. Crescer por etapas permite aproveitar a tendência sem colocar o caixa em risco”, explica Noronha.

Outra decisão envolve os fornecedores. Produtos que crescem rapidamente nas redes podem pressionar a procura por determinados ingredientes e embalagens, o que exige atenção aos preços e aos prazos de reposição. Em vez de formar grandes estoques para tentar antecipar as vendas, Noronha defende ciclos menores de compra e produção enquanto a procura ainda estiver sendo medida.

“O empreendedor precisa olhar três números todos os dias: quanto vendeu, quanto sobrou e quanto custará produzir novamente. É isso que mostra se existe espaço para escalar. Viralizar é uma oportunidade comercial, mas só vira resultado quando a venda deixa margem e o estoque acompanha o ritmo do consumidor”, aponta.

Essa lógica é identificada pelo estudo Tendências do Food Service, realizado pela WGSN em parceria com o iFood Move, como parte da chamada “Cultura dos Virais”. Segundo o levantamento, 35% dos usuários do aplicativo afirmam que a curiosidade pelo sabor é o principal motivo para experimentar alimentos que ganharam repercussão nas redes sociais.

A permanência do morango cravejado no cardápio de estabelecimentos em setembro também ajuda a mostrar que a reação de um pequeno negócio não termina no primeiro pico de procura. Depois da explosão inicial, é preciso observar se o consumo continua, desacelera ou começa a desaparecer antes de decidir pela manutenção do item.

“Entrar em uma tendência pode trazer novos consumidores e aumentar o movimento, mas o empreendedor precisa saber por que aquele item está no cardápio e qual é o limite da aposta. A rede social pode acelerar a demanda, mas quem determina se o produto faz sentido para o negócio são os números da operação”, conclui Noronha.

Sobre Felipe Noronha

Felipe Noronha é CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação no Alto Tietê, em São Paulo. Ele lidera o atual ciclo de transformação da empresa, conduzindo o processo de profissionalização, estruturação e expansão da marca.

À frente do negócio, atua na padronização de processos, no desenvolvimento de lideranças e na ampliação da capacidade produtiva, com a implantação de uma nova fábrica. Também conduz a expansão geográfica, com a recente abertura de unidades em Guarulhos e São Bernardo do Campo.

Como porta-voz, defende o crescimento com consistência operacional e preservação da essência da marca, com foco na experiência do cliente.

Para mais informações: Instagram e Linkedin.

Sobre a Doce Magia

A Doce Magia é uma rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de história, fundada no Alto Tietê, em São Paulo. A empresa nasceu de um negócio familiar e inaugurou sua primeira loja em 1993.

Atualmente, conta com sete unidades próprias na região de São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos. A empresa inaugurou uma fábrica de cerca de 2.000 m², ampliando sua capacidade produtiva e estruturando a operação para crescimento.

Mesmo com o avanço, a empresa mantém como diretriz a preservação de sua essência, baseada na entrega de experiências que combinam conveniência, indulgência e celebração.

Para mais informações: Instagram, Site e Linkedin.

Fontes de Pesquisa:

Folha de S.Paulo, com dados do Instituto Ideal, publicada em 13 de agosto de 2026.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2026/08/faturamento-de-padarias-cresce-mas-menos-do-que-em-anos-anteriores.shtml

Mintel, previsões globais de alimentos e bebidas para 2026.
https://www.mintel.com/press-centre/2026-food-and-drink-predictions/

ABIA e Wise Sales, estudo sobre padarias e confeitarias no Brasil.
https://abia.org.br/release/padarias-e-confeitarias-mercado-de-179-mil-unidades-no-brasil-se-reinventa-e-mostra-espaco-para-crescer/

Iphan, patrimônio cultural imaterial.
https://www.gov.br/iphan/pt-br/patrimonio-cultural/patrimonio-imaterial

(Crédito: Divulgação)