Pesquisa com mais de 29 mil influenciadores financeiros mostra que algoritmo da atenção tende a premiar carisma e promessa de retorno rápido, e não necessariamente qualidade das recomendações

O crescimento dos influenciadores financeiros nas redes sociais trouxe um cenário desafiador para o mercado de capitais, em que a audiência nem sempre está associada à qualidade da informação oferecida ao investidor. Um estudo conduzido por pesquisadores ligados ao Swiss Finance Institute, com dados de mais de 29 mil finfluencers da plataforma StockTwits, mostra que 56% deles apresentaram o que os pesquisadores classificam como “habilidade negativa”, gerando retornos anormais negativos de aproximadamente 2,3% ao mês para quem seguia suas recomendações. O dado mais preocupante, porém, está na relação entre desempenho e popularidade. Segundo a pesquisa, os influenciadores com habilidade negativa acumulam mais seguidores e exercem maior influência sobre as decisões de investidores de varejo do que aqueles que demonstram habilidade real.

Uma análise sobre os impactos e a responsabilidade dos finfluencers nos últimos anos, a partir desse estudo, é o grande destaque da edição de setembro da Revista RI, publicada nesta semana. Em sua coluna, Marcelo Murilo, cofundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, avaliou que o problema não está apenas no crescimento da influência financeira nas redes, mas na forma como os mecanismos de atenção podem favorecer conteúdos de maior apelo em detrimento daqueles tecnicamente mais consistentes. “O problema não é a ausência de bons conselheiros nas redes, é o fato de que o algoritmo da atenção tende a recompensar o carisma e a promessa de retorno rápido, não a acurácia”, afirma.

Entre os analisados, segundo a pesquisa, cerca de 28% apresentaram habilidade positiva, com retornos anormais de aproximadamente 2,6% ao mês, enquanto outros 16% não demonstraram habilidade relevante. Outro dado em destaque na publicação mostra que 97% dos day traders que persistiram perderam dinheiro, segundo a FGV.

No Brasil, o ecossistema monitorado pela ANBIMA saltou de 534 influenciadores e 208 milhões de seguidores, em 2023, para 904 e 310,7 milhões, em 2025. Apenas no segundo semestre de 2025, esses perfis produziram 468,4 mil publicações e geraram 1,3 bilhão de interações.

A publicação destaca ainda que a influência deixou de ser um fenômeno restrito às redes sociais e passou a ocupar espaço relevante na formação das decisões financeiras. Ao mesmo tempo, a certificação ainda não acompanha necessariamente o alcance dos perfis. Na primeira checagem realizada pela ANBIMA, pela 9ª edição do Finfluence, entre os dez maiores finfluencers pessoa física, apenas um possuía certificações de mercado financeiro. Posteriormente, a entidade criou rankings específicos para profissionais certificados, movimento que levou diversos influenciadores a buscar qualificações.

Para Murilo, o avanço da transparência é positivo, mas ainda existe um descompasso entre o tamanho do fenômeno e a estrutura de proteção disponível ao investidor. A própria análise publicada na Revista RI aponta que, entre 2024 e 2026, o ecossistema cresceu, a evidência científica sobre os riscos aumentou e a fiscalização e a autorregulação avançaram, mas a norma preventiva específica para finfluencers ainda está em construção.

Outro ponto de atenção é a fronteira entre opinião e recomendação. A matéria ressalta que a CVM já estabelece que um disclaimer como “isto não é recomendação” não é suficiente para descaracterizar uma atividade regulada quando existe exercício profissional, habitualidade e remuneração, ainda que indireta.

A edição completa de Setembro da Revista RI está disponível em https://www.revistari.com.br/304

(Crédito: drobotdean/Magnific)