Documentário apresentado no Festival de Sundance analisa como ações judiciais milionárias vêm sendo usadas para desestimular denúncias de abuso e violência de gênero.
Durante o Festival de Cinema de Sundance, Antonia Fontenelle foi convidada a realizar a cobertura da estreia mundial do documentário Silenced, exibido no último sábado, dentro da categoria de documentários internacionais.
Dirigido por Selina Miles, o filme aborda um fenômeno crescente no ambiente jurídico e midiático. Mulheres que denunciam abusos, violência doméstica e assédio sexual passam a enfrentar processos de difamação com pedidos de indenização elevados, o que gera desgaste financeiro, impacto emocional e retração do discurso público.
Durante a cobertura, Antonia entrevistou a diretora do longa e a advogada internacional de direitos humanos Jennifer Robinson, que atua em casos de grande repercussão internacional, incluindo o de Amber Heard. Também participaram das conversas mulheres cujas histórias estão retratadas no documentário, como a ativista colombiana Catalina Ruiz-Navarro, editora da revista latino-americana Volcánica.

“Silenced” é inspirado no livro Mulheres Silenciadas, publicado por Jennifer Robinson em 2023, e discute como as leis de difamação nos Estados Unidos têm sido utilizadas de forma estratégica como instrumento de intimidação legal. O documentário acompanha casos em que mulheres sofreram condenações financeiras severas após processos movidos por homens denunciados publicamente por elas.
Na apresentação do filme, Robinson destacou que o cenário pós-movimento #MeToo alterou o custo de falar publicamente sobre violência de gênero. Segundo a advogada, muitas mulheres passaram a ser alertadas por suas equipes jurídicas de que denunciar poderia resultar em falência financeira. “O questionamento central é o que significa liberdade de expressão se defender a verdade se torna economicamente inviável”, afirmou.
Antonia Fontenelle explicou que a escolha pela cobertura do documentário foi imediata. “Quando recebo a lista de filmes, escolho aqueles que considero relevantes. Ao ler a sinopse de ‘Silenced’ e identificar que o caso de Amber Heard fazia parte da narrativa, solicitei a cobertura”, afirmou. Segundo ela, o conteúdo superou as expectativas ao apresentar relatos de mulheres diretamente impactadas por esse tipo de ação judicial.

A apresentadora também destacou a importância de ampliar o debate para outros mercados. Segundo Antonia, houve troca de contatos com Jennifer Robinson e a intenção de conectá-la a iniciativas culturais no Brasil, como o Festival do Rio, para aprofundar a discussão sobre liberdade de expressão, abuso do sistema jurídico e exposição midiática.
O documentário deve circular por outros festivais e fóruns internacionais, ampliando o debate sobre os limites entre reputação, direito à defesa e o uso estratégico do sistema judicial como ferramenta de silenciamento. Para além do cinema, “Silenced” se posiciona como um estudo relevante sobre o impacto econômico, jurídico e social das ações de difamação em contextos de alta visibilidade pública.
